Sábado | 12 de setembro de 2026
O que está acontecendo com a Nike que a gente conhecia? A marca, que já foi a rainha da inovação com a placa de carbono e o Vaporfly, está visivelmente perdendo tração no mercado. A situação é tão séria que, após 18 anos, a Nike deixará a lista do S&P 100, que reúne as 100 maiores empresas listadas na Bolsa de Nova York. A perda de valor de mercado é brutal: a ação, que já chegou a valer 177 dólares, fechou a semana passada a 38 dólares, uma queda de 80% em cinco anos. Nesse mesmo período, o índice S&P 100 subiu 83% e o mercado de esportes como um todo cresceu.
Enquanto a Nike encolhe, a Adidas bateu recorde de vendas e outras marcas, como Hoka e On, continuam ganhando espaço. Segundo a analista de marketing Natália José, a Nike enfrenta uma crise de execução, relevância e posicionamento. Foram 220 bilhões de dólares em valor de mercado que simplesmente “viraram pó”.
Problema 1: A falta de inovação na corrida
Apesar de alguns analistas acreditarem que a Nike ainda vai bem no segmento de corrida, a realidade nas ruas e nas provas mostra o contrário. A marca parece ter se acomodado com o sucesso do Vaporfly e do Alphafly, que hoje já são considerados tênis “velhos” diante das inovações da concorrência. A “grande novidade” anunciada para a Maratona de Berlim foi apenas uma nova cor do Alphafly 3, um modelo lançado no final de 2023. A pergunta que fica é: “cadê o Alphafly 4?”.
Essa falta de novidades se estende aos tênis de treino. Para a Maratona de Chicago, prova que a própria Nike patrocina, o tênis especial da edição é um Vomero Premium, um calçado de treino diário que pesa mais de 300 gramas. A escolha mostra uma desconexão com o corredor que busca performance. Além disso, as franquias da marca se tornaram confusas, com múltiplas versões como Pegasus, Pegasus Plus, Pegasus Premium, e o mesmo para a linha Vomero, dificultando a escolha do consumidor.
Problema 2: Marketing e comunicação
O marketing sempre foi um pilar da Nike. A marca não apenas vendia produtos, mas criava o desejo por eles. No entanto, esse poder de comunicação parece ter ficado para trás. A linguagem agressiva e inspiradora que era sua marca registrada hoje é mais vista em concorrentes menores e de nicho.
Marcas como a americana Tracksmith, com sua estética de “treino puro”, e a Bandit, com uma pegada urbana que integra a corrida ao dia a dia, estão fazendo o trabalho de marketing que a Nike costumava fazer. Elas conseguem se conectar com a comunidade de corredores de uma forma que a Nike parece ter esquecido, criando um sentimento de pertencimento e desejo.
O avanço da concorrência
A Asics é um exemplo de como se adaptar. A marca manteve seus clássicos, como o Nimbus e o Kayano, modernizando-os, e ao mesmo tempo criou uma linha totalmente nova e contemporânea, a linha “Blast” (Novablast, Superblast), que se tornou um sucesso. O Novablast, inclusive, é o tênis mais utilizado no mundo, segundo dados do Strava. Além disso, os tênis de placa da Asics, como o Metaspeed, estão no pódio e vencendo maratonas importantes, inclusive provas patrocinadas pela Nike, como Chicago e Boston.
O cenário se completa com o avanço das marcas chinesas, que estão ganhando espaço na Europa e nos Estados Unidos com produtos que oferecem inovação, qualidade e preço competitivo.
A Nike pode dar a volta por cima?
A Nike tem dinheiro e capacidade para reverter essa situação, mas precisa querer e acertar o rumo. É necessário mais do que parcerias com grupos de corrida; é preciso ter produtos que os corredores tenham orgulho de usar. A diminuição visível de tênis da Nike nos pés dos corredores em provas é um péssimo sinal.
A empresa precisa urgentemente modernizar tudo: seus produtos, sua comunicação e sua conexão com a comunidade. Se não reagir, a queda que se reflete no valor de mercado e na preferência dos consumidores não terá fim.
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